quarta-feira, 19 de outubro de 2016

De repente a vida vira de ponta cabeça...

É, estou indo em direção reta e exata para os 48 anos de idade. Me lembro que quando era pequeno, via os caras de 30 como super velhos, barbados, decrépitos.  Eu já passei faz tempo dessa fase e nem me sinto com 30 ainda. Sendo até meio repetitivo ao post anterior, os meus últimos 10 anos, foram mais intensos que toda a minha vida junta.

Parece que não tem saída, ou você repensa as coisas, evolui, ou a vida te vira do avesso. Você está na ponta do trampolim vendo a piscina lá embaixo e de repente vem alguém e te empurra. E você tem duas opções: ou sabe nadar ou aprende. É bem o que eu sinto nessa minha fase de vida.

Começam a vir as perdas de pessoas queridas que você achou que iriam virar semente. Sua empregabilidade (corporativa) despenca, seu corpo começa a dar sinais de mau funcionamento aqui e ali. Mesmo que não seja nada grave, não é a mesma engrenagem. A sujeira que você colocou debaixo do tapete e esqueceu que estava lá vem à tona. Uma tempestade joga longe o tapete e você tem que lidar com tudo o que guardou lá no fundo. Você percebe que a vida é muito frágil e delicada.

Se por um lado a coisa vira do avesso, você começa a perceber que o avesso é o seu lado certo. Começa a rever todos os seus conceitos sobre espiritualidade, faz uma limpa no facebook como se limpasse as velhas gavetas do fundo do armário, descobre que o amor de fato existe e que você pode vivê-lo porque você merece vivê-lo. Você se descobre merecedor das coisas. Olha pra trás e vê por quanta coisa passou e sobreviveu a todas elas, se fortaleceu por tê-las vivido.

Descobri o amor da minha vida aos 44 quando achava que isso era fantasia, não existia. Existe, pena que nem todos encontram. Eu me sinto um privilegiado por isso. Nessa altura da vida ter alguém em quem compartilhar alegrias e tristezas, companheirismo, cumplicidade, amor, querer estar pertinho, gostar de sentir o cheiro da pessoa, pois o amor é perfumado!

Procurar perdoar, não pelos outros, mas por você mesmo, que é o maior beneficiado desse perdão (tô tentando mas é difícil pra caramba!). Tentar ter um pouco de fé e amor no coração, mesmo que pouco já é alguma coisa. Acreditar em algo além de nós mesmos, mesmo que ninguém acredite. Procurar ser uma pessoa melhor, que procura fazer o bem, mesmo que a gente escorregue de vez em quando. Criar um compromisso espiritual, seja meditar, rezar, parar, ver a natureza, olhar para o céu, contemplar o infinito. Tentar parar de pedir e simplesmente agradecer pelo que se tem, não praguejar pelo que se não tem.

Deixar as coisas do passado no passado. Caminhar sem mochila cheia de tranqueira é muito mais fácil. Deixar o lixo pra trás. Alguns você precisa resolver de uma vez por todas, outros é só jogar fora. Saber a importância da comunhão com sua família. É ela quem estará a seu lado até o fim dos seus dias. Valorize isso. Valorize os amigos que caminharam junto com você nesta caminhada e deixe os outros que não caminharam, seguirem seus caminhos. Talvez você nunca mais os encontre, mas a vida é assim, cada um segue o seu caminho.

E o mais importante: saber que nós viemos para esse planetinha chamado Terra não foi à toa. Temos que fazer valer nossa estada aqui e sair melhores do que entramos. Essa é nossa missão.

(Eu escrevo não para alguém ler, mas para me aprofundar em mim mesmo...)


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Meus planos deram errado...

Como diria Rubem Alves: "Eu cheguei até onde cheguei porque todos os meus planos deram errado". Verdade, Rubem. A minha história foi um pouco diferente, pois eu cheguei até aqui porque nunca fiz planos. Sempre segui minha intuição. Às vezes a gente acerta, outras não.

Meus últimos anos foram bem pesados. Perdi minha mãe de uma hora pra outra. Tive uma complicação operatória e quase que eu vou junto com ela. Me separei depois de 17 anos. Montei uma empresa que não foi o que eu queria. Fui de um extremo a outro. Fiquei bem. Fiquei depressivo. Fiquei apático. Sorri muito pouco nesses anos. Ganhei muito dinheiro. Perdi muito dinheiro. Acreditei no sonho e acordei de um pesadelo. Fácil é sonhar, difícil é acreditar no sonho todos os dias. Haja resignação, persistência e coragem.  



Eu não sei o que será em 2015. Eu nunca fiz planos. Isso é bom e mau. Não fazer planos nos livra das expectativas. Fazê-los nos ansia. Eu não tenho expectativas e não tenho sonhos. Quem disse que quem sonha é mais feliz?

Se nós fizéssemos 1% do que tanto lemos e postamos por aí, a humanidade seria melhor. Nós seríamos melhores. Só Caetano pra explicar:

Sou um homem comum
Qualquer um
Divagando entre a dor
E o prazer
Hei de viver e morrer como um homem comum
Mas o meu coração de poeta
Projeta-me em tal solidão
Que às vezes assisto a guerras e festas imensas
Sei voar e tenho as fibras tensas
E sou um. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Nossos pesadelos...

Às vezes é muito difícil viver, passar por todas as provas e experiências da vida. Talvez tenhamos de fato um propósito para estarmos aqui neste planeta. Eu de fato não sei, imagino que exista um. Ou vários. O fato é que quando parece que você já passou por tudo (ou quase tudo) vem algo maior ainda para testar sua resignação, sua força, sua capacidade de superação.

Como eu mesmo já disse e está escrito acima do meu perfil "Tudo o que eu escrevo é sempre uma meditação sobre mim mesmo". Rubem Alves. A gente escreve em blogs para extravasar, se virar do avesso, se expor. 

Enfim, tem dias que a gente acorda de saco cheio das coisas, das provas da vida. Dá uma vontade de dar um bico em tudo, de jogar a toalha, mandar tudo pra puta que pariu. Ultimamente vários dias são assim. Dá pra parar o mundo que eu quero descer? Acho que eu errei de mundo. Essa é a sensação de quem tem depressão. Inadequação. E pode tomar medicação à vontade, ela só te deixa anestesiado em um imenso torpor. Rivotril? Prozac? Mitarzapina? Lexapro? Sertralina? Lexotan? Etc.? Conheço todos. A milionária indústria farmacêutica. Inibidor seletivo de recaptação de serotonina, dopamina, e muitas "inas" ? Na verdade eles estão mais pra inibidores de sentimentos. Pois eles anulam o que você sente, seja bom ou mau. 

Pesadelos, lá no fundo cada um tem o seu. Todos tem seus medos. Depressão, te entopem de remédios pra você ficar entorpecido. Câncer, te entopem de químio pra destruir as células (boas e más). Os médicos não pensam em saúde, pensam em doença. Estudam doenças. 

Os disparates químicos do cérebro nos deixam em um estado de verdadeiro torpor. O mundo fica em preto e branco. O nome que eu dei para esse blog tem tudo a ver com isso. Errante Navegante. Aquele que navega à esmo, sem rumo, sem direção. Solitário. 

No passado, depressão ou suas variáveis eram nomeadas como melancolia. Talvez por ser a palavra mais próxima para descrever seu estado. Mas eu posso acrescentar várias. Solidão, inadequação com o mundo, perda de si mesmo, um fundo de mar abissal, isolamento e por último tristeza. Mas a tristeza aparente é apenas a ponta do iceberg. É o que aparece aos outros. O buraco é muito mais abaixo do nível do mar.

Até quando iremos viver só de remédios? Diante de tudo isso, de quem tem esse "mal do século", eu penso que só a medicina não nos trará respostas, só perguntas e anestesiamento. 

Quando vamos ter coragem de mergulhar no profundo mistério que somos nós mesmo? (Me pergunto a mim mesmo...)


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Nossas escolhas...

Depois de muita caminhada eu aprendi que o caminho certo é sempre o seu caminho, não o do outro. É comum a gente ficar pensando se deveria ter feito isso ou aquilo, ter dado aquele passo, ter ficado naquele emprego. Mas daí, você vai juntando os pedaços e descobrindo que todos eles seriam certos. Louco, né? Não importa qual a decisão, ela sempre será a certa, pode apostar. Eu sempre penso que existe uma orquestra lá em cima que comanda o show, nos orienta e nos move a afinar nossos instrumentos. 

Poucas coisas na vida eu me arrependo de ter feito. Poucas. Às vezes eu posso até achar que a forma poderia ter sido diferente, mas não a decisão. Pois é muito fácil a gente olhar para o passado e querer avaliá-lo com a cabeça do presente. Tanto já passou, tanta água rolou por debaixo da ponte que é no mínimo injusto fazer isso. Acho que tudo o que foi feito, nos trouxe uma lição, uma aprendizagem especial, que não poderia ter sido de outra forma. Aliás, só somos o que somos hoje, por todas as escolhas que fizemos. Elas até poderiam ser diferentes. Mas nós seríamos diferentes também. Seguiríamos outro caminho, talvez completamente inusitado.

Tome uma decisão! Qualquer que seja ela, você estará certo! O importante é tomá-la. A indecisão mata aos poucos. A indecisão nos consome por dentro e adia o novo caminho. Não se iluda: toda escolha implica em renunciar a algo. Toda escolha implica em correr riscos. Renuncie, abra mão, deixe ir, desapegue, corra riscos. Muitas vezes eu fui (e ainda sou) julgado pelas decisões que tomei, pelos riscos que corri. A gente nunca vai acertar todas, mas vai aprender muito todas as vezes. E eu acho que estamos aqui para aprender sempre e não acertar de vez em quando. O erro às vezes traz uma carga emocional que solidifica o aprendizado.

Muitas pessoas fazem planos para daqui há 5 ou 10 anos. Isso serve pra elas. Eu deixei de pensar muito no futuro, penso mais no presente. Eu procuro me ocupar com a coisa só quando ela acontece. Já dizia um certo provérbio que diz: Se o problema é grande demais, não adianta pensar nele. E se ele é pequeno demais, não vale à pena pensar nele.

Eu faço o meu melhor e deixo o resto com a vida, Deus, anjo da guarda, amigos espirituais, ou qualquer nome que você queira dar a essa energia que nos rodeia. Eu não busco preencher as expectativas das pessoas, pois a gente nunca consegue isso. Se alguém espera algo de você, isso é um problema dela, não seu. Inconsequência? Loucura? Insensatez? Não julgue. Julgar não faz parte do aprender. E às vezes para aprender uma lição a gente precisa cair, se desarmar, nos tornarmos mais humildes. 

Às vezes só na escuridão a gente aprende o que é luz.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Acorda Brasil!!!!

Eu venho acompanhando as manifestações no Brasil, assim como a maioria dos brasileiros. E as demandas são diversas. É aumento de salário, condições de trabalho, aumento das tarifas do transporte público, gastos com a Copa do Mundo no Brasil e por aí vai. O povo está descobrindo o seu poder de mobilização, seja através dos sindicatos, seja através das redes sociais ou seja por insatisfação pessoal. Há de tudo. Mas a maioria é de reivindicações de classe, não pelo Brasil, não pelos brasileiros. Cada um pensa no seu e não no coletivo maior que é o país.

Porém, pouco se fala sobre a corrupção, o custo dos políticos e da máquina do Governo. Em uma rápida pesquisa, há como levantar alguns números de arrepiar. Em 2013, só em impostos, o brasileiro pagou algo em torno de 1.7 trilhão de reais. É uma montanha de dinheiro que daria para consertar todo o sistema de saúde, educação, transportes e infra-estrutura do país. No entanto, 8.6 bilhões vão para sustentar o elefante branco e gordo que é o Congresso Nacional. O custo médio de 1 político no Brasil é de 117 mil mensais, o mais caro do mundo! E temos mais de 60 mil políticos.  Ou seja, esse povo custa por volta de 85 bilhões ao ano. Só em corrupção, segundo a ONU, anualmente vai pro ralo mais de 200 bilhões. Por aí a gente percebe onde está o problema.

Um político deve ganhar um salário compatível com a realidade dos brasileiros, é necessário cortar todos os benefícios atrelados ao cargo que não estejam disponíveis a todos os brasileiros, deve ser obrigado a utilizar o sistema de saúde que eles mesmos disponibilizam para a população (o SUS) ou pagar um particular do próprio bolso, tem que ter nível superior para pleitear o cargo, ficha limpa e conduta imaculada. Os brasileiros pagam impostos que tem de ser revertidos em benefícios para a população.

As manifestações são um caminho plausível para essa conquista. A imprensa livre e a liberdade de expressão também. Mas uma manifestação tem um limite muito tênue com uma massa de manobra política. Eis o perigo.

O governo praticamente não tem oposição. Faz o que quer e como quer. As manifestações (ainda muito fracas) são ofuscadas por cenas de vandalismo. É assim que os países de primeiro mundo nos vê. Os brasileiros que morrem nos corredores de hospitais públicos são os mesmos que votam no governo que mantém sistemas de saúde precários e programas sociais populescos e eleitoreiros. Político não quer resolver os problemas do país. Quer voto, pois voto=dinheiro=poder. Os poucos que conseguiram quebrar esse paradigma, alguns ministros do supremo, ainda tem de ouvir de um ex-presidente em entrevista internacional, que é tudo político, ou seja, temos uma corte suprema que decide contra a moral e a ética.

Ser político deveria ser uma meta pessoal e de idealismo em ajudar o país a crescer, não de enriquecer a si próprio. Há países em que o políticos não ganham salário ou ganham um salário mínimo.

O Brasil tem condições e dinheiro. Não tem é vergonha na cara! 


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Saiba como identificar psicopatas no mercado de trabalho.

Matéria do G1 muito interessante sobre os psicopatas do mundo corporativo. Vale à pena ler!

Por Anne Barbosa, do site G1 - São Paulo

"Pesquisa aponta que 16% dos CEOs e altos executivos são psicopatas. Transtorno é caracterizado pela ausência de empatia em relação ao outro."

Eles parecem atenciosos e dedicados ao trabalho, mas, na primeira oportunidade, apunhalam pelas costas colegas que confiaram neles. Mentem sistematicamente, arruínam funcionários e até cometem crimes, como fraudes na contabilidade e eliminação de qualquer prova que os condenem. Tudo para conseguir o que querem. Não se trata de profissionais apenas ambiciosos. São o que os especialistas em comportamento chamam de psicopatas corporativos.

Os CEOs, diretores executivos das empresas, estão no topo do ranking da psicopatia, segundo pesquisa da Universidade British Columbia. Entre a população em geral, até 4% são considerados psicopatas. Entre os CEOs e altos executivos, o índice chega a 16%.

"Isso quer dizer que na população mundial, cada um de nós conhecerá pelo menos 15 psicopatas ao longo de sua vida. Imagine quantos deles são os líderes que conhecemos", diz Luiz Fernando Garcia, CEO da Cogni-MGR, empresa especializada na modificação de comportamento de líderes.

Como identificar

"A psicopatia é um traço de personalidade, caracterizado pela ausência de empatia em relação ao outro, sendo a realização dos desejos individuais o objetivo fundamental que mobiliza as ações do psicopata", afirma Rubens Luis Folchini Fernandes, psiquiatra do Hospital Israelita Albert Einstein.

Segundo o especialista em comportamento de líderes, Luiz Garcia, profissionais com traços de psicopatia se caracterizam pela recusa do "não" como resposta, por não reconhecerem limites e não sentirem culpa pelos seus atos. "Essas características que podem ser equivocadamente privilegiadas pelas organizações que buscam resultados de curto prazo e que têm na rentabilidade o seu maior valor”, diz.

Com ajuda da empresa Cogni-MGR, o G1 listou algumas características para ajudar a identificar os psicopatas no ambiente de trabalho. Confira:

Tem um encanto superficial – O psicopata tem alto poder de sedução e capacidade para manipular as pessoas no início de relacionamentos. "Eles são pessoas, à primeira vista, 'muito normais', de notável capacidade sedutora e convencimento, podendo inicialmente enganar até mesmo os clínicos mais experientes. São essas características que levaram o autor Hervey Cleckley a utilizar o termo 'máscara da sanidade''', segundo o psiquiatra Rubens Fernandes.

Mente sistematicamente – Mentir é uma “ferramenta de trabalho” do psicopata. A mentira alimenta a personalidade egocêntrica dele, que gosta de mostrar que é o melhor, o mais rico, que pode tudo.

Não sente afeto – Ele é indiferente ao sentimento dos que o rodeiam. Tem baixa inteligência emocional. Simplesmente não consegue perceber o que as pessoas à sua volta estão sentindo.

Não tem moral ou ética – Para o psicopata, ética e moral não existem – apenas necessidades e objetivos a serem alcançados.

É impulsivo – A falta de moralidade leva à tomada de decisão sem ponderar pessoas e coisas envolvidas.

É incorrigível – Como não tem moral ou sentimento de culpa, a mente do psicopata não vê motivos para corrigir o seu comportamento.

É um hábil manipulador – Não mede esforços para mudar as aparências e trazer as pessoas para o seu lado nas mais adversas situações.

Não é social – Por ser excessivamente egocêntrico, tem dificuldade de se relacionar com as pessoas. Só faz isso quando há interesse em benefício próprio.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Lembranças de infância...

Meu pai sempre gostou de viajar, de pegar estrada. Como bom mineiro que sempre foi, de uma cidadezinha do triângulo mineiro, gostava da natureza e da beleza que ela exibia. Sempre me lembro dele me mostrando alguma espécie de árvore, um novo nome de fruta, nas andanças que fazíamos pelo interior de Minas.

Minas sempre foi minha referência maior, pois toda minha família é mineira, apenas eu e meus irmãos nascemos em São Paulo. Então, quando as férias chegavam, lá íamos nós para Minas. Eram horas e mais horas de viagem pelos mais diversos tipos de paisagens bucólicas, nas estradas que parecem existir só em Minas. E tudo era uma aventura, desde brigar com meus irmãos para ver quem ia na janela e quem ficava no meio do banco, até parar naqueles postos de gasolina para fazer xixi e comer doce de leite.

Mas algumas lembranças são mais fortes dessas viagens. Durante o percurso de mais de 8 horas de estrada, meu pai sempre comentava conosco sobre os infindáveis campos de capim-gordura à margem das estradas, das plantações de milho, café, cana-de-açucar e laranja que verdejavam a paisagem. Perdi a conta de quantas vezes ele parava o carro no acostamento só para bater foto de Ipê. "Nó sô, era bunito dimais da conta!" Aqueles Ipês solitários pairando, quase que suspensos no ar, sob os campos de capim-gordura.

Como as viagens eram constantes e as aulas que meu pai dava sobre a natureza também, ele sempre fazia chamada oral durante a viagem, de modo a saber como andava nosso interesse e conhecimento sobre seus ensinamentos. E as perguntas variavam: "Que plantação é essa?", "Que tipo de capim é esse?", "Aquilo é um Ipê ou uma Quaresmeira?", "Qual daquelas árvores é um pé de jenipapo?"

Tem duas coisas que meu pai ama fazer: pescar e observar as árvores e seus frutos. Conhece tudo esse mineiro. E eu aprendi com ele a gostar da natureza, de observar as espécies e seus frutos. Só não aprendi a pescar e nem vou aprender. Eu sempre perguntava a ele: Pai, que graça tem enfiar um ferro pontudo no fiofó da minhoca e ficar rasgando boca de peixe? Ele ria e dava de ombros:)

A herança disso tudo é que hoje eu consigo ouvir passarinhos no meio do barulho infernal do trânsito de São Paulo. Já me peguei várias vezes engarrafado na marginal do rio Pinheiros, observando as garsas e capivaras na beira daquele lixo todo. Ou uma debandada de passarinhos de algum pé de fruta. Nomes como jatobá, guariroba, gabiroba, ata, coquinho-de-vassoura, mangostim, jenipapo, fruta-de-lobo, entre outras, eu aprendi observando as observações do meu pai sobre as coisas que via.

Há algum tempo me brotou a idéia de entrevistá-lo em vídeo para a posteridade. Para que possam ser guardadas todas as histórias que ele viveu, as pessoas que conheceu e como foi a transformação do mundo através de seus olhos sempre observativos.

E isso é algo que não se pode postergar muito, pois nunca se sabe até quando você terá a chance e o privilégio da companhia do teu pai.

Mas eu carrego comigo o impulso contemplativo do meu pai, sobre as árvores, os frutos e os animais. Quer herança melhor?